• Giselle Paulino

Doutorado Livre

Um espaço de aprendizagem em grupo para trocar, sonhar e realizar juntos


Gosto muito da pergunta: se eu pudesse criar minha própria jornada de aprendizado, como ela seria? Com quem gostaria de aprender? Que lugares escolheria para estar? Com a Uni Kebradas, desenhamos diversas jornadas para desconstrução e para reimaginar a educação. No meio do processo, entendemos que, apesar da proposta de recriar algo novo, somos muito condicionados a padrões que nos fazem repetir comportamentos como a competição, necessidade de aceitação, a relação dominante do dinheiro, imposição no outro. Era preciso olhar para isso antes de pensar numa jornada externa. Tirar amarras para queas próximas escolhas pudessem ser mais livres. A UniKebradas já tinha um grupo muito especial para ancorar esse trabalho. Então surge o Doutorado Livre, esse espaço onde um aprende com o outro a partir das relações e de questões práticas da vida real. A desconstrução interna veio de forma orgânica. Depois da pandemia, esperamos que o grupo possatrocar presencialmente e que um possa passar tempo na comunidade do outro.

Giselle Paulino, cocriadora da UniKebradas.


Depoimentos


Eu divido o Doutorado dentro de mim em três partes. Primeiro, é um lugar de despertar. Existem muitos conhecimentos, sabedorias, dons, talentos, dentro de cada um de nós e ao longo de nossas vidas isso foi adormecido. O Doutorado tem essa função maravilhosa de nos despertar. É um chamado. É um chamado que ecoa dentro da nossa alma e da nossa mente. Nos faz compreender que aquilo que as vezes para nós parece dispensável ou comum é na verdade extraordinário. Cada ser humano com aquilo que ele tem. E isso o doutorado tem me trazido.


Depois ele me leva para um lugar de permissão. O mundo é cheio de regras, de condutas que nos engessam. E nos tonam um exército tão parecido. E o Doutorado vem para nos mostrar que você pode ser exatamente como quer ser. O choro que já coloquei várias vezes sempre foi acolhido, independente se foi um choro de angústia, desabafo, sempre fui muito acolhido. É um lugar onde me é permitido entregar minhas dádivas e também alguns dos meus demônios que eu carrego. Pois não temos só virtudes. Ser acolhida em minhas dádi- vas e virtudes pra mim é libertador.


O terceiro ponto é a transformação. A gente aprende a se transformar. A ser algo melhor. Me leva a compreender que o Doutorado é uma consciência coletiva de esperança. Que temos em comum é que todos nós cremos. Não desistimos de ser esperançosos. Trabalhar, desejar e ansiar construir esse mundo melhor. E esse mundo melhor não precisa ser no futuro. Pode ser hoje, agora e a cada instante, em cada encontro do Doutorado. E tornar o mundo melhor por algumas horas de encontro. E fazer com que isso reverbere o resto da semana tem sido pra mim um fator de sobrevivência nesse mundo tão caótico. Final- mente, se tem uma coisa que o Doutorado tem me ensinado é que eu já me sentia como uma ave de boa plumagem, bom potencial para lançar meus voos. Mas ainda ficava em penhascos moderados, comuns, confortáveis. O Doutorado me levou para muito alto.O Doutorado mostra pra mim os picos mais altos e diz: é pra lá que você vai, porque você consegue. E vamos juntos. É isso que me incentiva, que me faz continuar participando e aprendendo juntos.


Tina Gonçalves, Café das Marias

“Nossa Riqueza Exponencial.” O esplendor da natureza é medido por sua diversidade bio- lógica. Quanto mais espécies de fungos, plantas, árvores frondosas, invertebrados, peixes, aves, répteis, anfíbios e mamíferos existirem em um ecossistema, mais rico este será. Uma biodiversidade abastada significará uma maior interação entre todas as espécies da região e uma maior chance de evitar que alguma espécie seja extinta. A metáfora da riqueza natural pode ser transplantada para a riqueza cultural. Quanto maior o número de etnias, de idiomas, de tradições e de maneiras diferentes de entender o mundo, melhor. Se todos formos iguais e pensarmos igualmente, como soldadinhos do consumismo, nossa monocultura nos le-vará, mais cedo ou mais tarde, à diminuição de nossas possibilidades. São justamente as riquezas das mentes, dos sentimentos e dos espíritos de cada um dos membros de nosso Doutorado Livre que desenham a abundância de nosso espectro. Podemos, em conjunto, entender e vivenciar muito mais do que a soma de cada um de nós. As interações possíveis entre nosso grupo não acontecem apenas em um ritmo aritmético, mas através de um crescimento exponencial. Um exemplo simples e simbólico: 1+1+1 não resulta em apenas 3, mas sim em111—o que é 37 vezes maior do que 3.

Haroldo Castro, fotógrafo e escritor



É engraçado quando tentamos definir algumas coisas em palavras. Hoje refleti sobre essa rede. Estamos formando uma rede de amor. Algo muito genuíno. Que não vem de um lugar de obrigação. É o que vem primeiro no meu coração. O Doutorado informal tem sido a cons trução de uma fraternidade solidária. Um espaço em que se compartilha sonhos, experiências,dores e dificuldades. Uma corrente de amor genuíno, onde se ousa pensar no amor incondicional. As pessoas, suas histórias e saberes são vistas, valorizadas, respeitadas.

Vinícius de Morais, Quebrada Sustentável

É a cura da separação. Que somos capazes de estar juntos mesmo quando temos opiniões diferentes. De entender a linguagem do coração quando estamos na nossa essência.

É um Doutorado focado no amor e espírito sem qualquer pré-conceito. Dá a voz a todos que estão presentes. Me mostra que posso sempre confiar e que está tudo bem se eu errar. O Doutorado mostra que podemos nutrir nossos corpos com histórias de vidas que libertam qualquer dor.

Elem Coelho, Favela da Paz


Muito simples e por isso muito complexo. É um momento que não começa na hora que a gente se encontra, nem termina quando desligamos. É um território de confiança e de pro- funda harmonia. A despeito de dores ou memórias que ressuscitamos. Mas especialmente, é uma escuta profunda. E uma narrativa ainda mais imersa de cura. De cura coletiva. Claro que começa na gente e na nossa disposição de estar ali com o outro e com a gente mesmo. Da gente reaprender a aprender. A ser quem somos. A ficar nu no palco sem pudor. E a estar a serviço. Esse grupo se acolhe e se reverencia a cada instante. Curiosamente, é um “cocoon” que quer se libertar para o mundo. Não quer ser um aglomerado de bolhas. Querque esse “cocoon” seja o mundo. E é por isso que a gente volta pra ali, quer permanecer e tem dificuldade de sair. Pois esse é o mundo que a gente quer pra todo mundo. Esse é o meudoutorado informal.


Andrea de Lima, jornalista independente

Quando pensamos na palavra livre é porque existe o outro lado. Qual o oposto do outro doutorado livre? É um doutorado que é condicionado a diversas normas que foram es- tabelecidas, a princípio, para proteger o conhecimento, ter certeza que o conhecimento científico estava sendo levado a sério, mas que de alguma forma se perdeu nesse processo. A metodologia passou a ser mais importante do que a troca de conhecimento e a busca do conhecimento em si. O conhecimento só faz sentido quando ele é transformador. Quando agrega alguma coisa na nossa vida. Isso só consigo conquistar quando me relaciono com outras pessoas. A origem de todo conhecimento vem da relação nossa com o meio, com as pessoas ao redor, o mundo, a natureza. Para mim, é muito importante que essa troca seja essencial, que seja a coisa mais valiosa na busca do conhecimento. E não os conhecimentos acadêmicos. Não aquela proposta que exclui as nossas intuições, emoções, que exclui o sentimento, porque algo que eu tenho aprendido no doutorado livre é que ideias podem ser debatidas, mas quando você tem um vínculo verdadeiro entre as pessoas, existe confiança. E nesse ambiente, mesmo que traga ideias contrárias, não tem mais o debate. Você tem o acolhimento. E acredito que fora do Doutorado Livre, o debate ocupa um lugar que virou cruel. As pessoas se colocam em trincheiras e brigam para defender suas ideias enquanto o que deve ser defendido é o espírito humano. A defesa das relações humanos. Da compreensão, do acolhimento, do vínculo, da busca pelo amor incondicional. Mesmo que soe como utopia. Mas o que há de errado em sonhar com o impossível? Essa quebra de paradigmas é o que mais me fascina dentro do Doutorado Livre. E essa liberdade de fato que cada pessoa pode escolher o rumo que quer dar a sua busca. Ela pode escrever, estudar e fazer o que bem entender. Mas ela pode conviver com as pessoas que estão ali. Viver em lugares diferentes, conhecer o mundo por outros horizontes. Isso traz um frescor e um desafio constante. A vida passa a ser uma grande aventura, uma grande viagem. É oportunidade de descontruir e reconstruir. De amar e ser amado. O Doutorado Livre não tem uma definição clara. Justamente te dá a oportunidade de pen- sar de diversas maneiras a respeito dele. O que penso é que temos muita transparência. As pessoas se mostram como realmente são. Tiram suas máscaras no doutorado acadêmi- co, as pessoas são orientadas a se esconderem atrás de outros doutores que já receberam as honras da Academia. Você precisa ter toda uma pompa, toda uma circunstância, se munir de muitas certezas. Isso é o oposto do que encontramos em nosso Doutorado Livre. Abrimos mão de certezas, só temos certeza de que queremos ter uma atitude positiva em relação à vida e à natureza. Atitude inclusiva a tudo. Fora isso, todos os outros ques- tionamentos são bem-vindos dentro do Doutorado Livre. Essa é uma das coisas que me fascinam.

Suzana Nory, doutoranda da UniKebradas


O Doutorado Livre pra mim é a regeneração do aprender. É a compreensão de que a liber- dade só vem no coletivo, a liberdade de aprender. É a sincronização do sentir, pensar, falar e estar a serviço da vida.

Agatha Liz, Espaço Vazio/ Favela da Paz


“Essa a experiência de aprendizagem mais transformadora que já vivenciei. Poderia escrever mais um capítulo sobre o tema, mas eis um livro inteiro para tangibilizar muitas das reflexões que fazemos em nos- sos encontros sobre sistemas, redes, ecossistemas, permacultura, corresponsabili- dades, economia, saúde, conhecimento, sabedoria, transformação... O lado mais especial desse Doutorado é a convivência: em cada encontro, me vejo refratada e refletida na imagem de cada um, pessoas com histórias de vida completamente diferentes, com seus sotaques, cores, sabedorias, contextos, expectativas e desafios em uma relação de muita admiração e respeito mútuo. Todos se espelham em todos: uma verdadeira Rede de Indra. Sem espiral do silêncio, sem “dono da bola”, sem “jogo de poder”, sem ameaça, sem risco, mas com muitos ganhos compartilhados. Um espaço primordial para a troca que constrói algo que já é concreto mesmo enquanto projeto: uma vivência respeitosa, acolhedora, amorosa, paciente, aberta, que me permite refletir a cada dia sobre competitividade, ganância, concorrência, a hipocrisia, entre outras desvirtudes históricas de um certo modelo decadente e ainda em uso de fazer negócios.

Marina Pechlivanis, estudiosa das relações de troca

40 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo